O que é a Evolução da Consciência?

“Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce”
Fernando Pessoa

Porque somos compelidos a procurar, a meditar, a questionar e a alcançar aquilo que é mais elevado e profundo? O que é que em nós anseia e sofre por trazer sempre mais Verdade, Amor e Beleza para o nosso mundo atormentado? Esta é uma pergunta infinitamente fascinante e eternamente inalcansável. 

Apesar de eu estar seguro de que nunca serei capaz de conhecer a resposta, ou expressar completamente por palavras as minhas intuições mais profundas acerca deste mistério, eu irei, no entanto, tentar transmitir a natureza desta chama inesgotável que ilumina a minha vida cada dia...

De uma forma simples, a Evolução da Consciência tem tudo a ver com a paixão sagrada de trazer o Céu à Terra, em realizar e depois manifestar o Divino, através de, e como, a nossa Humanidade Desperta. Na minha experiência e compreensão, esta jornada tem duas fases distintas, que podemos comparar à jornada de subida, e depois descida, de uma elevada montanha. Embora possamos experienciar e praticar ambas as fases simultaneamente na nossa jornada de Despertar, a primeira fase - a jornada de subida da montanha - é a força motriz da subida, motivada primariamente pela procura, e a segunda fase - a jornada de descida da montanha - é a força motriz da descida, motivada principalmente pela dádiva. 

A jornada de subida da montanha começa, quando devido a uma razão inexplicável, nos encontramos profundamente cativados pela atração magnética de um Mistério, que reside para além dos confins encapsulados da nossa personalidade histórica e do ser psicológico. Essa atração é o Chamamento da Consciência - o nosso próprio Ser Verdadeiro - que nos chama a transcender o nosso apego enraizado à ilusão, muito convincente, de uma auto-existência independente e separada.

Ao ouvir este Chamamento, nós começamos a deixar de procurar satisfação e preenchimento em objetos, pessoas e experiências fora de nós mesmos. À medida que as nossas energias, previamente dispersas e viradas para o exterior, coalescem numa tranquila e constante chama interior de aspiração, nós experienciamos o amanhecer de um delicado despertar, radiante e inteligente, no centro do nosso Ser. 

Esta inteligência intuitiva, impulsiona-nos em direções que quebram e dissolvem todas as crenças e presunções limitadoras, que resultam da auto-contração da consciência egóica. Irá guiar-nos na direção da nova experiência que, repentina ou gradualmente, irá erodir ou despojar-nos das nossas ilusões e apegos. Este é, simultaneamente, um processo emocionante e doloroso. Podemos sentir-nos compelidos a devorar livros espirituais, a largar todas as rotinas conhecidas e abraçar o caminho rumo ao desconhecido, passar algum tempo em mosteiros e Ashrams ou, simplesmente, repousar em meditação espontânea durante horas num banco de jardim. Enquanto despertamos do sonho da existência separada, também podemos descobrir que os nossos relacionamentos estão a romper-se e nós somos confrontados com a profundidade da nossa inconsciência, quer o nosso sofrimento psicológico auto-criado, quer o sofrimento que desnecessariamente criamos aos outros. 

Se permitirmos que este Chamamento siga o seu caminho através de nós, podemos ficar tão avassalados pela crescente chama interior de Liberdade, que sentimos que estamos a ser literalmente elevados daquilo que aparentava ser a “minha” vida. Pode gradualmente despontar em nós, que de facto nunca se tratou da “minha” vida, mas que EU SOU a própria Vida e que sempre fui.

Quanto mais nos rendemos a este Chamamento, mais simples se torna a nossa experiência essencial da Vida. As circunstâncias externas da nossa vida podem ser complexas e caóticas, mas interiormente, encontramo-nos a habitar um sentido envolvente de equanimidade e paz mais profundas. Podemos tornar-nos tão simples, que muita da nossa família e amigos nos podem considerar como algo malucos e perigosamente obcecados com a nossa espiritualidade. Porquê? Porque os nossos valores estão a sofrer uma transformação radical. Nós sentimo-nos impotentemente atraídos pela doçura da simplicidade e perdemos interesse pela interminável complexidade e sedução do mundo. Desejos não realizados, ansiedade acerca do futuro, ambição, necessidade de amor e afirmação pelos outros, todas estas coisas e outras começam a desvanecer, de uma forma orgânica, assim como as folhas caem naturalmente de uma árvore. 



Se formos mordidos a sério pelo bicho do Despertar, então é uma questão de tempo até, de alguma forma, tropeçarmos no cume da montanha iluminada pelo sol e, à medida que a neblina desaparece, nós imergimos numa “des-coberta” radical e extra-ordinária de Quem Realmente Somos - a própria Consciência Pura e Brilhante, Sempre Presente e que Tudo Inclui, na qual toda a manifestação miraculosamente aparece.

Despertar para o nosso Ser Verdadeiro enquanto a própria Consciência, pode ser comparado a alcançar o topo da grande montanha, porque na nossa solitude transcendente, nós vemos e sentimos a verdade última da existência, em todas as direções, simultaneamente. A revelação da nossa união fundamental com toda a manifestação, e da nossa liberdade radical da ilusão dolorosa e contraída do ego separado, se for suficientemente profunda, tem o poder de abrir uma brecha através do nosso carácter, que altera para sempre a nossa percepção de quem somos e do que a vida se trata. 

Se formos sinceros no nosso querer de sermos uma expressão viva desta simplicidade, clareza e alegria libertadoras, então o seu irreprimível sentido de reverência, admiração e múltiplas possibilidades irá eventualmente tornar-se o nosso companheiro constante. Nós iremos descobrir que, tal como disse um grande místico Indiano, nós temos um amigo que está sempre presente, mas que nunca somos capazes de ver. E iremos rejubilar no brilho deste Mistério sempre novo, a cada dia. 

Despertar para a nossa verdadeira natureza enquanto Consciência ou Espírito é sempre novo, pois abençoa-nos com o “re-conhecimento” constante de que nós já SOMOS aquilo que estávamos a procurar. O nó existencial do ego psicológico, separado e em sofrimento, dissolve-se na benção de paz inefável, bondade básica, liberdade sem limites e, muitas vezes, com muitas gargalhadas. Nós despertamos para um mundo de união translúcida, no qual tudo É simplesmente radiante TAL COMO É. Apesar da injustiça, crueldade e dor de cortar o coração, de uma forma incomensurável, a cintilante e lúcida perfeição não conceptual brilha sem escurecer, anunciando eternamente a Glória de Deus.

Quando o Despertar autêntico desponta, seja de que forma for e quando, marca um ponto de viragem extático na nossa evolução. Existe uma libertação profunda da tensão existencial acumulada, à medida que caímos no coração abençoado da Vida, uma emocionante e penetrante clareza, à medida que derramamos as nossas capas protetoras de separação e limitação, e um Amor miraculoso que envolve o nosso ser individuado e toda a manifestação, no seu abraço cósmico. De muitas e variadas formas, Despertar é o derradeiro “chegar a casa” e, se estivermos prontos para morrer para o sonho de uma auto-existência independente e separada, é na realidade o fim da busca. Permanece apenas enraizado nesse reconhecimento de que EU SOU Consciência, transcendendo e incluindo corpo, mente e mundo, nada mais para fazer e nenhum outro lado para ir. Permanece indiferente e livre do emaranhamento com a sedução ilusória e tremulante das coisas deste mundo. SÊ apenas! Esta é a mensagem essencial de tantos místicos antigos e modernos. 

Mas há mais... Despertar para a nossa identidade primária enquanto Consciência Sempre Já Livre é o fim da busca, mas sem dúvida que não é o fim da aventura de uma Encarnação Desperta. O desejo de uma libertação pessoal, mesmo que numa forma elevada, continua a ser um resultado subtil do ego, no sentido de que se apoia na ideia da nossa própria individualidade e o seu desejo espiritual para o seu próprio bem- estar pessoal. Enquanto a nossa motivação primária para procurar a liberdade espiritual for um anseio pela libertação do sofrimento, ou por atingir um estado “final” liberto e transcendente para nós próprios, então não estaremos numa postura receptiva e de coração radicalmente aberto, para cumprir verdadeiramente o nosso destino divino. Mas se formos puros de coração e procurarmos ser um com o Divino, para o bem do próprio Divino, então abrimo-nos ao Chamamento supremo da Consciência.

O Chamamento ascendente da Consciência atrai-nos na jornada de subida da montanha, para descobrir a nossa Identidade fundamental enquanto a própria Consciência/Espirito/Deus. Então, se o nosso copo não está apenas cheio, mas a transbordar, se a nossa motivação primária para procurar a libertação não for “obter”, mas “dar”, iremos começar a ouvir o Chamamento de descida da Consciência. Esse Chamamento não é outro senão aquele copo a transbordar, atraindo-nos para além de cada vestígio de auto-satisfação, com a liberação existencial da nossa “libertação pessoal”. Esse transbordar, que pressiona para a frente, dentro e através de nós, leva-nos, sem escolha, em direção a uma vida de serviço altruísta ao Desejo Divino. 

Este transbordar significa o começo da segunda fase da Grande Jornada. De que forma? Porque a Consciência não é apenas Eternidade Transcendente, simbolizada pela vista sem limites desde o pico da montanha, mas também anseia por iluminar e infundir as manifestações do tempo, que aparecem no seu abraço aberto. Este Desejo Divino não é uma função do nosso desejo idealista para realizar “boas obras”, ao invés ele brota espontaneamente de uma base de paz profunda, de um Conhecimento que brilha a partir da Luz transcendente e de um Amor que sofre com a agonia e êxtase da existência. 

A Consciência É, e no entanto, se oferecermos a nossa total individualidade finita de uma forma tão plena e completa quanto é possível numa auto- entrega, nós iremos descobrir que a Consciência também QUER. O que é que quer? Quer seguir em frente através, e como, a sua manifestação, ou seja o nosso corpo-mente incarnado e individual. Quer Evoluir em, e como, TU e EU! Ou, dito de outra forma, o Ser quer Tornar-se. Ou, ainda de outra forma, O Céu quer descer à Terra. Como? Através das mãos, coração e mente iluminada em ti e em mim! Pois Deus tem duas faces inter- penetrantes: a Paz Transcendente do Puro Ser e a Paixão Transformativa para Devir, para Criar expressões mais elevadas, profundas e mais integradas de si Próprio na forma, e nós somos ambas simultaneamente 
 

Quando abraçamos esse paradoxo, então a essência mais profunda e subtil de quem somos enquanto indivíduos - a Alma - é totalmente ativada. Partindo de uma base de confiança liberta, que podemos definir como um saber não verbal, não conceptual de que tudo é Um e que a Vida é Boa, nós começamos a perceber e experienciar um fluxo criativo e dinâmico, proveniente do Ser Transcendente.

Ser é Pura Presença, o Eterno AGORA. Por isso é que alguns místicos dizem que quando nós percebemos essa profundidade, a Verdade Absoluta é que “Nunca Nada Aconteceu”. Mas quando permanecemos nessa, e enquanto essa Presença Pura, embora “interagindo” com a aparência da manifestação, experienciamos ainda mais o fluxo subtil de novidade, uma onda de frescura sempre elevada, uma consistente faísca de maravilha que surge do momento sempre presente AGORA.

Este fluxo, esta maravilha, movem-se constantemente na direção daquilo a que o filósofo Alfred North Whitehead chamou, o Avanço Criativo em direção à Novidade. Tal como eu o compreendo, a Alma - a essência mais profunda de quem somos enquanto um indivíduo - desperta e revela-se quando está em contacto, em alinhamento com o Ser, e contém, na forma de semente, o plano para aquilo que é suposto nos tornarmos enquanto seres humanos individuados. 

Quando a Alma contacta com o Ser Absoluto, a mais profunda essência da nossa individualidade, alinha-se com o tecido evolucionário do Cosmos. Tal como uma semente que é abençoada com solo fértil, água e sol, a nossa Alma começa a desenrolar o seu plano. Não obstruída pela auto-contração do ego separado, a nossa Alma torna-se agora o principal condutor do veículo corpo/mente individual. 

Quando a nossa Alma se torna o condutor principal da nossa incarnação humana, nós descobrimos gradualmente uma corrente de força e direcionalidade inabalável a infundir o nosso ser. Nós já não somos governados pelos julgamentos de outros, ou por leis estabelecidas pelos ignorantes. Nós obedecemos a uma voz interna e somos movidos por um Poder invisível. A nossa ação é a de um Executor liberto. De nós sai um fluxo a partir da Alma, como um resultado natural da nossa união espiritual com o Divino. As construções do pensamento mental, raciocínio prático e expectativa social, apesar de utilizadas sempre que necessário, são suplantadas por uma liberdade de todas as normas externas. Elas são postas de lado e permanece apenas uma obediência integral e espontânea ao desenrolar da Alma-Devir. 
 

O que brota da Alma é sempre profundo, autêntico e puro. Nós encontramo-nos cada vez mais a fazer consistentemente a coisa certa, no momento certo e pelas razões certas. Continuamos a ter opiniões inconstantes, desejos, impulsos e hábitos, mas estes são experienciados cada vez mais enquanto formações superficiais ou estados insubstanciais de mudança. Eles mudam e alteram-se, mas a força duradoura e direcionalidade instantânea da nossa Alma permanecem constantes. Não são as formas da nossa expressão que são constantes, mas é antes a “forma” essencial de nós próprios, enquanto um Indivíduo Desperto, que se torna progressivamente mais firme. Essa “forma” é o Espírito Transcendente ou Consciência manifestando-se através do nosso corpo, mente e personalidade, enquanto a nossa Alma-Devir única, através do tempo.

Não conseguimos distinguir esta verdadeira Lei interna do nosso Ser até estarmos suficientemente purificados do egoísmo, das ideias superficiais e insubstanciais, impulsos, desejos, medos, sugestões e imposições que absorvemos enquanto personalidade mental, emocional e física, através da nossa formação e do nosso ambiente.

A nossa Alma afirma-se a si própria cada vez mais claramente, em articulação direta com o grau ao qual consistentemente nos entregamos à purificação e consagração da nossa Individualidade ao Divino. Este processo de purificação e desabrochar da Alma é a própria Evolução. Evolução é o desabrochar da Alma em direção à percepção da totalidade do Universo.
 

Este desenvolvimento é como um vento limpo, estimulante e sempre novo a encher as nossas velas, um vento que surge de uma fonte inesgotável de cuidado e amor pela manifestação da união e verdade neste mundo. Há uma inteligência inerente neste desenvolvimento, que desperta a intuição iluminada ou o “tutor interior”. Se tivermos desistido de todas as vontades pessoais de como queremos que as nossas vidas se desenrolem, então esta corrente gentil de orientação intuitiva irá fazer-se sentir. Tal como um poço borbulhante de clara, limpa e irreprimível inspiração, o “tutor interno” surge num largo espectro de formas. Quer seja sentido como um encorajamento subtil e delicado por um lado, ou uma ordem visceral e avassaladora por outro, nós percebemos esta orientação criativa fluindo e emergindo constantemente, do nada para algo, da não existência para a existência. É um fluxo que está a ser renovado constantemente. Nós descobrimos que, apesar da experiência de contratempos e batalhas desafiadoras e dolorosas, que certamente nos irão confrontar, rendemo-nos a esta Vontade Divina, este fluxo irreprimível eventualmente reafirma-se a si próprio, tal como uma bóia que sempre encontra o seu caminho de volta à superfície do oceano, após uma tempestade.

Este fluxo é aquilo que eu entendo por Evolução da Consciência. É o aspeto criativo da Consciência que está sempre a movimentar-se na direção da revelação de nova verdade, nova experiência, nova manifestação do divino. 

Podemos chamar este aspeto ativo e criativo da Consciência o pulsar do Devir. Mas é importante perceber que a criação contínua do Devir não está separada do Ser. É o Ser a manifestar-se através de inúmeras formas variadas. Devir é o fluir do Ser. Devir é o florescer e desenrolar miraculoso, espontâneo e auto-revelador da criatividade do Ser.

Nesta revelação radicalmente inclusiva da compreensão não-dual, a verdadeira razão pela qual devemos procurar a libertação não deve ser apenas entregue a partir do sofrimento psicológico e da tristeza do mundo, apesar dessa entrega também nos ser dada, mas que possamos Ser e Tornar-nos UM com o Propósito Divino. Esse propósito é o imperativo evolucionário que a Verdade da União deve ser manifesta no Indivíduo, e depois no Coletivo, de forma a que se possa manifestar no Mundo.

Depois, libertos fundamentalmente da auto-contração do ego, vivemos no, e enquanto, o Grande Paradoxo da Transcendência e Imanência, do Ser e Devir, todas as forças da nossa humanidade elevadas na Força Una, Propósito Uno e Vida Una.

Informações sobre o Curso Evolução da Consciência com o Peter em Lisboa 



Information about the Evolution of Consciousness Course with Peter in Lisbon

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